PROJETO “DIALOGANDO COM AS ELEITORALISTAS”: ENTREVISTA COM A ADVOGADA PAULA BERNADELLI

O “Observatório Eleitoral do Ceará” consiste numa plataforma online, voltada ao fomento da transparência do processo eleitoral. Sua finalidade é contribuir com o aperfeiçoamento do exercício da cidadania.

Para inaugurar suas atividades de 2019, o Observatório lança, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, um dos seus novos projetos, o “Dialogando com as Eleitoralistas” por acreditar que os(as) advogados(as) e consultores(as) jurídicos são atores indispensáveis ao processo eleitoral e que as advogadas merecem um destaque especial nesse nicho profissional ainda predominantemente ocupado pelos homens.

O projeto será inaugurado com a entrevista da advogada Paula Bernadelli. Paula é graduada em Direito com habilitação em Direito do Estado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), coordenadora de Comunicação da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (ABRADEP), membro da Comissão Permanente de Estudos em Direito Político e Eleitoral do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP), professora convidada em cursos de extensão nas áreas de Direito Político e Eleitoral e advogada atuante na área de Direito Eleitoral, atualmente sócia do escritório Rubens Naves Santos Jr. Advogados. Lattes: http://lattes.cnpq.br/4217276983001112.

Paula respondeu às perguntas formuladas pelo Observatório Eleitoral do Ceará e narrou um pouco da sua experiência profissional enquanto mulher advogada atuante em uma área predominantemente masculina. Vamos conferir sua entrevista? Está incrível.

ENTREVISTA

1) Qual seu nome, idade e estado civil?

  • Paula Bernardelli, 29 anos, solteira.

2) Há quanto tempo atua na área eleitoral?

  • 5 anos.

3) Quando decidiu que iria advogar nessa área?

  • No início da minha graduação.

4) Você advogada de forma autônoma ou é sócia ou associada de/a algum escritório?

  • Sou associada de um escritório (Rubens Naves Santos Jr Advogados).

5) Qual o perfil dos seus clientes? Mais homens ou mulheres? Idade? Formação educacional?

  • Maioria de homens acima de 50 anos, formações muito variadas.

6) Você já advogou ou prestou consultoria jurídica para quais cargos?

  • Prefeito, Governador, Presidente, Deputado, Vereador, Senador, Presidente da Câmara, Secretário Municipal.

7) Que tipo de serviço jurídico você presta? Advocacia preventiva ou contenciosa?

  • Advocacia consultiva e contenciosa. A maior parte do trabalho é no contencioso eleitoral e administrativo, com ações civis públicas e ações de improbidade administrativa, bem como acompanhamento de contas no Tribunal de Contas. Há também o acompanhamento do julgamento das contas do pelas Câmaras legislativas. Durante o período eleitoral o tempo é bastante dividido entre o contencioso eleitoral e o consultivo para organização das campanhas, acompanhamento das propagandas eleitorais e atos de campanha em geral.

8) Você já foi assediada por algum cliente, assessor, magistrado, membro do MP no exercício da sua profissão?

  • Sim, por clientes de forma mais explícita, e já passei por situação de tentar ser intimidada por membro do MP.

9) O adjetivo “linda” precede o “inteligente”, “competente” e “esforçada” quando você recebe elogios de homens e mulheres?

  • Durante os primeiros dois anos da minha carreira advoguei em Curitiba/PR. Talvez por nessa época eu ser mais nova, ou simplesmente por uma grande coincidência, lá isso era mais comum. Desde que mudei para São Paulo não enfrentei mais essa situação.

10) Você já deixou de ser contratada por ser mulher?

  • Não, mas já deixei de ser escalada para algumas atividades por isso.

11) Você viaja muito a trabalho? Como ficam as questões pessoais?

  • Viajo com certa frequência. Como moro sozinha, sou solteira e sem filhos não há muitas questões pessoais a serem resolvidas com minha ausência. Mas nos destinos das viagens constantemente sou questionada – na maioria das vezes por completos desconhecidos – sobre como “meu marido” lida com as minhas ausências.

12) Como os seus colegas de profissão, que também atuam na mesma área, lhe tratam?

  • Varia muito, alguns tratam com uma certa infantilização que vem de uma mistura de ser mulher e ser jovem. As mulheres aparentemente demoram mais que os homens para deixarem de ser “jovens” na advocacia aos olhos dos colegas.

13) Você acha que seu pertencimento ao gênero feminino é um motivo de retração ou expansão do seu mercado de trabalho e da sua carteira de clientes?

  • Sim, não apenas há uma preferência dos clientes por advogados homens, mas também ser mulher dificulta a tentativa de uma aproximação com clientes sem margens para ser interpretada de forma errada.

14) Em que momentos ser mulher ajudou ou lhe prejudicou no exercício da sua posição?

  • Já me prejudicou por ter vivido momentos em que me impediram de realizar alguma atividade que me propus a fazer alegando que não era tarefa para mulher. Já me ajudou porque alguns (poucos) clientes já afirmaram acreditar que mulheres são mais diligentes.

15) Você já perdeu clientes, após contratação, para um colega advogado homem? Se sim, a questão do seu pertencimento ao gênero feminino foi a razão?

  • Não. Mas possivelmente porque trabalhei em equipes que ou eram predominantemente masculinas ou havia um homem no comando da equipe.

16) Para você, quanto à conciliação do trabalho com vida familiar, essa conciliação é diferente, mais grave ou mais leve se você advoga na área eleitoral em relação a outras áreas?

  • Mais grave em períodos de campanha. Fora do semestre eleitoral o ritmo de trabalho é bastante parecido com outras áreas da advocacia. A advocacia no semestre das campanhas, no entanto, exige um certo nível de imersão no trabalho e para isso é necessário abdicar de fins de semana, feriados e é muito difícil estabelecer uma rotina fixa de horários nesse período.

17) As mulheres são, em média, 15% das candidatas eleitas. Esses dados são de 2018. Como você enxerga essa baixa representação?

  • A baixa representação feminina é um problema evidente na consolidação de nossa democracia. Um problema que deita raízes já nas estruturas partidárias. Embora as mulheres sejam cerca de metade das filiadas, os partidos, em regra, só apresentam mulheres no limite mínimo estabelecido em lei. Ainda, poucos são os partidos que se importam em ter mulheres em suas estruturas diretivas, o que alimenta esse cenário de profunda desigualdade.

18) Como mulher e advogada na área, o que você pode constatar dos demais candidatos, partidos políticos e da própria Justiça Eleitoral e MP em termo de condutas ativas ou omissivas que só agravam esse quadro?

  • Há uma dificuldade legislativa de acessar esse cenário, seja pela proteção constitucional dada à autonomia dos partidos, seja pela má vontade do legislador em criar regras mais efetivas para a solução. O MP tem fiscalizado de forma mais rigorosa a apresentação de candidaturas de mulheres apenas para cumprimento de cota, o que pode caracterizar fraude e atrair sanções para toda a chapa. A carência de uma legislação coerente e forte sobre o tema, no entanto, dificulta qualquer ação do judiciário para buscar uma solução definitiva.

19) Na qualidade de mulher e advogada, como se coloca diante desse contexto de sub-representação feminina na política? Já tomou ou toma alguma atitude no sentido de modificar esse quadro a partir do seu trabalho ou meio social?

  • Participo de grupos feministas que promovem algumas ações e estudos, como divulgar candidatas mulheres bem como trabalhar a importância de uma maior representatividade feminina na política. Nos anos eleitorais me ofereço para ajudar na capacitação de mulheres que tenham interesse em ser candidatas, auxiliando na compreensão da legislação eleitoral e das dinâmicas de campanha.

20) Você desenvolve alguma atividade na área acadêmica na qualidade professora, palestrante, escritora, aluna?

  • Dou aula como professora convidada em algumas especializações em Direito Eleitoral, dou palestras e escrevo artigos.

21) Qual sua opinião sobre a sub-representação das mulheres nos eventos jurídicos? Você acha que já deixou de ser convidada por ser mulher, em que pese sua especialidade e expertise na área?

  • A sub-representação de mulheres nos eventos jurídicos é um problema que exige também uma postura ativa dos organizadores de eventos para ser superado. O fato de que os homens são, desde sempre, mais convidados para eventos, faz com que os homens se tornem mais conhecidos na área jurídica e, com isso, continuem sendo sempre mais chamados para novos eventos. A solução, portanto, exige a intenção de corrigir essa falha de representatividade também neste espaço, até que a paridade em eventos jurídicos seja efetivamente natural.

22) Você se considera uma mulher privilegiada? Em que aspectos?

  • Sim, sou uma mulher branca de classe média. Isso já me coloca numa posição de não ter enfrentado preconceitos de raça ou de classe social, além de ter tido acesso ao estudo formal de qualidade durante toda a minha vida.

23) Você já foi vítima de machismo, inclusive de outras mulheres? Em que situações e momentos?

  • Sim, com clientes fazendo piadas ou comentários inconvenientes em reuniões, outros advogados fazendo comentários também inconvenientes.

24) Você já advogou para homens que não acreditam na igualdade de gênero? Como você se sentiu em relação a isso?

  • Sim, esse processo de separação entre aquilo que acredito e o que acreditam os clientes é menos complicado do que costumam imaginar. É preciso entender que a divergência de posições políticas e ideológicas não interfere na defesa dos direitos dos clientes. O advogado não atua como um porta voz do cliente em todas as esferas. A defesa judicial para exercício adequado do direito independe dessas posições.

25) O que você indica para a mulher, graduanda ou graduada em Direito, ou para a jovem advogada, que pretende advogar ou prestar consultoria jurídica nessa área?

  • Que sigam com esse plano, que resistam e se unam para enfrentar uma área ainda predominantemente masculina e profundamente machista. O Direito Eleitoral precisa de mais mulheres atuando e lutando por igualdade.

26) Na sua opinião, quais as medidas que podemos adotar, em termos legais ou mesmo políticos e culturais, no sentido de reverter esse sub-representação da mulher na política e a desigualdade da mulher advogada nesse mercado de trabalho?

  • Há uma necessidade de divulgar os impactos dessa sub-representação e a importância de superar esse quadro, não apenas por uma questão simbólica, mas para que seja possível uma efetivação real da democracia e, com isso, melhoras sociais que impactam a todos. Paralelo a isso, é importante que legisladores percebam a importância e efetivem medidas que promovam a igualdade de gênero de forma mais célere.

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