O tempo da cidadania

Por Raquel Cavalcanti Ramos Machado* (publicado no OPovo)

 

Ao longo das eleições, convidaram-me para escrever sobre seus aspectos políticos, mas não me senti motivada. Muito ultrapassava a razão ou nem chegava a ela. O humano revelou o bicho em si. Cidadãos demonstraram características pseudodialéticas, a revelar que, quando criticamos políticos, temos menos crise de representatividade e mais crises narcisistas, na dificuldade de ver quem somos.

As eleições trouxeram perplexidades quanto ao acirramento de ânimos, inovações na forma de realizar campanha, alterações no quadro político. Questões técnicas e políticas redecoraram o cenário. Campanhas foram mais baratas, mas agressivas. Apesar da maior representatividade, mulheres continuaram a enfrentar problemas com registro e financiamento. O critério utilizado pelos partidos para a distribuição de verbas não parece claro. A propaganda mudou seu palco para as mídias digitais. A acusação de fraude nas urnas não retirou a credibilidade do processo de votação e apuração.

Ao lado de alguns ganhos, as eleições não foram bem. O que poderia ter sido festa democrática orquestrada pelo debate de ideias e pela música da razão revelou-se evento com improvisos, mentiras, tingido de cólera e alucinógenos ideológicos.

A história nem sempre é feita de atos pensados, mas de acontecimentos que se impõem, como as guerras. Como lembra Elias Canetti: “pena que não tenha surgido um poeta capaz de evitar a guerra”, alguns até a insuflaram.

Em meio à ressaca, além da percepção renovada de que a legislação é falha no disciplinamento do jogo, precisamos ter em mente que a política é feita de ações e palavras. Estas devem coincidir, mas são independentes, cada uma com seu patamar de sacralidade. Do contrário, a interação democrática já se inicia degradada.

Para além, é preciso ter em conta que cidadania não é feita só em urna, em reações momentâneas e estridentes. Cidadania é engrenagem permanente ao exercício da individualidade num espaço plural. Requer acompanhamento dos mandatos. Inicia-se a cada nova legislatura. Que iniciemos carregados dos valores com os quais nos identificamos, certos de que políticos não são detentores exclusivos da política. A política é do cidadão.

 

*Advogada, Professora de Direito Eleitoral da Universidade Federal do Ceará (UFC), Doutora em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), Coordenadora do Grupo de Pesquisa e Extensão em Direito Eleitoral “Ágora: Educação para a cidadania: denúncia e esperança” e do Projeto “Observatório Eleitoral do Ceará” (www.observatorioeleitoralce.com).

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